De repente, cessando a reflexão, fitou em mim os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo.↵
--Medo?↵
--Sim, pergunto se você tem medo.↵
--Medo de que?↵
--Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, do andar, de trabalhar...↵
Não entendi. Se ella me tem dito simplesmente: «Vamos embora!» póde ser que eu obedecesse ou não; em todo caso, entenderia. Mas aquella pergunta assim, vaga e solta, não pude atinar o que era.↵
--Mas... não entendo. De apanhar?↵
--Sim.↵
--Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada?↵
Capitú fez um gesto de impaciencia. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. Sem saber de mim, e, não querendo interrogal-a novamente, entrei a cogitar d'onde me viriam pancadas, e porque, e tambem porque é que seria preso, e quem é que me havia de prender. Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube, uma casa escura e infecta. Tambem vi a presiganga, o quartel dos Barbonos e a Casa de Correcção. Todas essas bellas instituições sociaes me envolviam no seu mysterio, sem que os olhos de ressaca de Capitú deixassem de crescer para mim, a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. O erro de Capitú foi não deixal-os crescer infinitamente, antes diminuir até ás dimensões normaes, e dar-lhes o movimento do costume. Capitú tornou ao que era, disse-me que estava brincando, não precisava affligir-me, e, com um gesto cheio de graça, bateu-me na casa sorrindo, e disse:↵
--Medroso!↵
--Eu? Mas...↵
--Não é nada, Bentinho. Pois quem é que ha de dar pancada ou prender você? Desculpe que eu hoje estou meia maluca; quero brincar, e...↵
--Não, Capitú; você não está brincando; nesta occasião, nenhum de nós tom vontade de brincar.↵
--Tem razão, foi só maluquice; até logo.↵
--Como até logo?↵
--Está-me voltando a dôr do cabeça; vou botar uma rodella de limão nas fontes.↵
Fez o que disse, e atou o lenço outra vez na testa. Em seguida, acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim; mas, ainda ahi nos detivemos por alguns minutos, sentados sobre a borda do poço. Ventava, o ceu estava coberto. Capitú falou novamente da nossa separação, como de um facto certo e definitivo, por mais que eu, receioso disso mesmo, buscasse agora razões para animal-a. Capitú, quando não falava, riscava no chão, com um pedaço cie taquara, narizes e perfis. Desde que se mettera a desenhar, era uma das suas diversões; tudo lhe servia de papel e lapis. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ella no muro, quiz fazer o mesmo no chão, e pedi-lhe a taquara. Não me ouviu ou não me attendeu.