Na varanda achei prima Justina, passeando de um lado para outro. Veiu ao patamar e perguntou-me onde estivera.↵
--Estive aqui ao pé, conversando com D. Fortunata, e distraí-me. É tarde, não é? Mamãe perguntou por mim?↵
--Perguntou, mas eu disse que você já tinha vindo.↵
A mentira espantou-me, não menos que a franqueza da noticia. Não é que prima Justina fosse de biocos; dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; mas, confessar que mentira é que me pareceu novidade. Era quadragenaria, magra e pallida, bocca fina e olhos curiosos. Vivia comnosco por favor de minha mãe, e tambem por interesse; minha mãe queria ter uma senhora intima ao pé de si, e antes parenta que extranha.↵
Passeámos alguns minutos na varanda, alumiada por um lampião. Quiz saber se eu não esquecera os projectos ecclesiasticos de minha mãe, e dizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha á vida de padre. Respondi esquivo:↵
--Vida de padre é muito bonita.↵
--Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre, explicou rindo.↵
--Eu gósto do que mamãe quizer.↵
--Prima Gloria deseja muito que você se ordene, mas ainda que não desejasse, ha cá em casa quem lhe metta isso na cabeça.↵
--Quem é?↵
--Ora, quem! Quem é que hade ser? Primo Cosme não é, que não se importa com isso; eu tambem não.↵
--José Dias? conclui.↵
--Naturalmente.↵
Enruguei a testa interrogativamente, como se não soubesse nada. Prima Justina completou a noticia dizendo que ainda naquella tarde José Dias lembrára a minha mãe a promessa antiga.↵
--Prima Gloria póde ser que, em passando os dias, vá esquecendo a promessa; mas como ha de esquecer se uma pessoa estiver sempre, nos ouvidos, zás que darás, falando do seminario? E os discursos que elle faz, os elogios da egreja, e que a vida de padre é isto e aquillo, tudo com aquellas palavras que só elle conhece, e aquella affectação... Note que é só para fazer mal, porque elle é tão religioso, como este lampião. Pois é verdade, ainda hoje. Você não se dê por achado... Hoje de tarde falou como você não imagina.↵
--Mas falou á toa? perguntei, a ver se ella contava a denuncia do meu namoro com a visinha.↵
Não contou; fez apenas um gesto como indicando que havia outra cousa que não podia dizer. Novamente me recommendou que não me désse por achado, e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias, e não era pouco, um intrigante, um bajulador, um especulador, e, apezar da casca de polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes, disse:↵
--Prima Justina, a senhora era capaz de uma cousa?↵
--De quê?↵
--Era capaz de... Supponha que eu não gostasse de ser padre... a senhora podia pedir a mamãe...↵
--Isso não, atalhou promptamente; prima Gloria tem este negocio firme na cabeça, e não ha nada no mundo que a faça mudar de resolução; só o tempo. Você ainda era pequenino, já ella contava isto a todas as pessoas da nossa amizade, ou só conhecidas. Lá avivar-lhe a memoria, não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros; mas tambem, pedir outra cousa, não peço. Se ella me consultasse, bem; se ella me dissesse: «Prima Justina, você que acha?» a minha resposta era: «Prima Gloria, eu penso que, se elle gosta de ser padre, póde ir; mas, se não gosta, o melhor é ficar.» E o que eu diria e direi se ella me consultar algum dia. Agora, ir falar-lhe sem ser chamada, não faço.